Reflexão: o que estávamos fazendo errado?

Não quero que tudo volte ao normal – Por Ana Laura Dagorret

Vivemos num mundo onde quem faz sucesso é quem gera dinheiro, onde o respeito se compra e onde quem não consome fica de fora, onde trabalhar 10, 12 horas por dia é o único jeito de sobreviver e nem assim as vezes dá para pagar as dívidas de quem só come e paga aluguel, onde passar mais tempo no trabalho que com a família está normalizado. Vivemos num mundo onde a ganância não tem limite, onde tragédias acontecem diariamente por causa do extrativismo desmedido e milhares de vidas são tiradas sem sequer receber justiça, só pelo atrevimento de procurar um melhor passar.

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Aqui em Búzios parece que tudo isso fica muito longe, tanto que às vezes nem dá para perceber as milhares de injustiças que esse mundo padece, mas em alguns aspectos ainda dá para enxergar quanto a nossa cotidianidade está viciada pelo consumo.

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Eu não quero voltar a um sistema de saúde público precarizado, onde só consegue atendimento quem paga uma consulta. Não quero voltar para um sistema onde trabalhos tão fundamentais como limpar, servir e cuidar pessoas seja mal pago, onde ganha mais quem disputa clientes com o vendedor que está do lado, sofrendo os mesmos padecimentos, as mesmas urgências, as mesmas injustiças. Não quero voltar para um trabalho que não assegura viver com dignidade e onde o tempo só é valorizado pela quantidade de vendas que fiz naquele dia, onde o pagamento de um salário mínimo não cobre nem o aluguel de uma kitinete, onde mesmo com qualificação são quase nulas as ofertas de emprego bem pagas por causa do custo de montar um empreendimento nessa cidade. Não quero voltar para uma estrada cheia de carros onde quem passa de bici corre risco de vida permanente, onde quem pega transporte público não tem certeza das demoras e da continuidade do emprego se atrasar.

Definitivamente não quero que tudo volte ao normal se isso implica continuar poluindo os mares com trânsito marítimo sem controle só pela vontade e necessidade de ganhar dinheiro. Não quero voltar a praias lotadas de cadeiras de aluguel com direito a brigas entre donos de pontos por causa de uma vaga a mais, onde canudos e copos de plástico junto com pontas de cigarros tomam conta da areia, não quero voltar a terras em preservação sendo vendidas de forma ilegal em troca de apoio para campanha política, nem a vereadores que faz abuso das necessidades mais básicas em troca de título de eleitor, o que ficou ainda pior agora durante a quarentena. Não quero voltar aos navios cada vez mais perto da península, destruindo vida marinha e jogando poluição nas nossas praias. Não quero voltar ao normal para continuar sentindo o cheiro de esgoto no meio da Rua das Pedras por causa da sobre ocupação hoteleira e da falta de saneamento básico na cidade. Não quero voltar ao normal para continuar ouvindo ‘desculpas’ para não falar do importante. Não quero voltar a lógica de salve-se quem puder, a justificar a desigualdade, a injustiça, o abuso de quem tem dinheiro por sobre quem precisa e faz o que for preciso porque não tem outra opção.

O coronavírus vai passar, mais cedo ou mais tarde. Mas o que tá acontecendo não permite continuar negando a realidade, porque se continuarmos nessa lógica o que virá será pior, mais trágico e triste. Se for para tudo isso, eu não quero que tudo volte ao normal.

Ana Laura Dagorret é jornalista e fotógrafa. Argentina e moradora de Búzios, trabalha com turismo em Arraial do Cabo.


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